De manhã minha consciência volta como tapa na cara. Desperto num susto, e me condeno por isso em vão. A consciência tenta dormir novamente, mas o susto novamente aparece como a visita de um ente não-querido ao som do telefone da sala, que toca loucamente implorando
por atenção. No momento, a única fresta de consciência que tenho é o desejo de
que a pessoa do outro lado da linha tenha um infarto fulminante... mas, como me
arrependo fácil, dobro o meu corpo dolorido em “U” e ponho finalmente os pés no
chão – enquanto isso, o telefone berra loucamente.
Olho as horas do celular antigo: 07:12. O telefone já não quer mais atenção... filho da puta! A consciência torna-se um monstro violento que dá pancadas na
minha cabeça, berrando, querendo que eu viva mais o dia, que eu colha os botões
das flores da primavera antes que murchem – Maldito “Carpe Diem”!.
Os insetos que estão na parede do meu quarto me veem, com suas barrigas
lotadas, como um prato de comida com o resto do que sobrou da ceia da
noite passada. Vejo um pouco de mim em cada um deles, e a cena de calmaria presente nos seus pequenos olhares cinzas me dá
pequenos “tiques” de raiva
...
Filhos da puta!
...
Filhos da puta!
Penso em não fazer a higiene pessoal matinal, meu índice de rebeldia
está alto o suficiente para cometer um assassinato, então não vou fazer mais
BOSTA NENHUMA!
...
Me arrependo novamente e faço o que tenho que fazer.
...
Me arrependo novamente e faço o que tenho que fazer.
O café da manhã não é mais o mesmo de anos atrás, quando era apenas uma criança
que acordava com o mais carinhoso "bom dia" que uma mãe, que largou a
sua vida para cuidar de mim, poderia oferecer; com o cheiro do pão com manteiga
na chapa e o sol chegando pelas frestas da janela fechada. A única coisa que me sobrou, (in)felizmente, foi o pouco do simpático e caloroso sol, que ao meio dia torna-se um monstro de fogo que acaba com o couro e a raça de qualquer ser composto por água!
Mal abro a janela do quarto, um som
ruidoso, asqueroso, de letras tão vulgares quanto um vocabulário repleto de
pornografias invade meu único espaço de tranquilidade. Um carro com o som nas
alturas me faz pensar o porquê da existência de seres humanos que aderem a uma cultura vaga e sem nexo, assim como o dono desse automóvel-maldito. Sim, essa é a minha “primeira” reflexão do
dia. Depois de um tempo, chego à conclusão de que TAMBÉM sou tão ser humano, que, para outros seres humanos, minha identidade cultural pode não ter sentido algum, quanto ao dono do automóvel-maldito
...
Maldito!
...
Maldito!
Quando ligo a T.V, a moça linda do telejornal me cumprimenta
apenas como parte do roteiro monótono que toda a capital segue durante essa
hora da manhã, menos eu, que acordei tarde para o serviço. Percebo que estou
atrasado, e então, com toda a educação que me deram na juventude, respondo: “Bom dia
...
Só se for pra você, sua filha da puta!".
...
Só se for pra você, sua filha da puta!".

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