Encontro-me, no meio de algumas trilhas sonoras, nas ruas onde passava contigo
De volta para a minha casa, voltando do teu lar.
O coração respira triste, mas sem dor.
As repostas que outrora não estavam claras
Hoje fazem sentido como um luminoso letreiro que mostra minha vitória.
Respiro saudoso e agradeço aos céus por ter vivido ao teu lado...
Lembrando-me do teu lar, as imagens parecem mais vivas do que o amor que senti por ti
Foi intenso, porém cego...
Foi quente, porém sem caminho para um cômodo dividido a dois...
Ambos queríamos nos esquentar diante do frio dos nossos carentes corações.
A razão interveio como um juíz que se atrasa para a audiência,
Deixando pegar fogo no tribunal,
Queimando-nos em falsas esperanças.
Agora não mais me moldarei a um amor vazio
Aprendi errando com você
Por isso agradeço e choro
Como uma última despedida de mil beijos
Apenas mil longínquos e saudosos beijos.
quarta-feira, 8 de julho de 2020
quinta-feira, 26 de março de 2020
A formiga no banheiro
Em alguma segunda-feira qualquer,
especificamente após um dia não-tão-corrido-assim, cheguei do treino rotineiro
em uma academia próxima à minha humilde residência. Não seria tão rotineiro se
eu não tivesse desistido de cumprir todo o treinamento proposto por um personal trainer qualquer – no qual eu
nem me lembro do rosto –, por conta do estabelecimento estar tão lotado quanto
um formigueiro recém-construído, que fora pisado por uma criança travessa ao
jogar futebol num campinho.
A
desistência ocorrera de maneira certeira quando, no corredor da academia, avistei
uma esteira solitária. “Quarenta minutos de hammster
running para compensar o restante da ladainha física e logo cairei fora
daqui” – pensei com satisfação, ao possivelmente me ver livre daquele
formigueiro gigante o quanto antes. Não tardou e logo estava livre do ambiente
empanturrado de pessoas que buscavam objetivos que variam desde a estética à
saúde (mais para o primeiro objetivo).
Ao
chegar a casa, deparei-me com o banheiro livre, chamando-me como uma amante
deitada em seu leito sagrado de luxúria e perdição. Nem esperei os rituais
iniciais da noite de núpcias e já entrei com a roupa suada e mochila nas costas
sem pensar! Nada poderia atrapalhar o meu momento de prazer naquele fatídico
momento!
Após
despir-me, entrei no boxe de concreto, girei em sentido anti-horário o registro
que liberaria a minha liberdade em estado líquido e ali começou um dos rituais
mais sagrados e naturais de um ser humano: o banho. Uma curiosidade sobre esse
ritual é a consciência de que estamos vulneráveis diante da nudez e da solidão.
É compreensível, portanto, que os mais variados pensamentos fluam nesse
momento; que os sentimentos sejam derramados por meio das lágrimas que são
carregadas na chuva artificial; que os cânticos sejam finalmente liberados com
audácia, graças ao som estridente do chuveiro que acompanha como uma banda a
voz do desafinado...
Toda
essa reflexão surgiu no momento de paz, mas seria concluída se não fosse a
pequena imagem que invadia o meu território celestial: a figura impávida de uma
formiga!
Uma
pequena e maldita formiga! Aquela pequena presença despertou em mim uma fúria
do tamanho de um gafanhoto devido ao meu ódio ancestral por qualquer tipo de inseto,
então decidi tomar uma atitude digna de um rei que tenta proteger o seu reino:
atacar o inimigo com os recursos que o castelo me proporciona! E naquele
momento, o mesmo elemento que enxuga as lágrimas do sofredor tornou-se balas
dos canhões que foram apontados para aquele ser irritante. O primeiro jato de
água foi feito com as mãos em forma de concha, e logo me virei para continuar a
me deleitar novamente daquele momento interrompido. Mas quando tornei para
aproveitar do sabor da minha pequena vitória, me deparei com uma cena que
deixou meu ego mais ferido do que nunca: a formiga ainda estava viva!
Capengando,
aos frangalhos, o pequeno inimigo se mostrou mais forte do que a rajada mortal
de água, e isso representou uma afronta ao rei daquele ambiente úmido.
Novamente, recarreguei meu arsenal de munição aquática, ainda mais potente,
apontei com uma mira ainda mais apurada do que a última e investi contra o
pequeno guerreiro. Após o splash, não
virei como da outra vez, mas me pus em alerta para me certificar do destino
trágico que o mais poderoso ataque reservou para ela, e dessa vez um sorriso
sádico se fez desenhar em meu rosto, quando finalmente vi a minha pequena
inimiga imóvel. Entretanto, no lugar do sorriso sádico, o contorno dos meus
lábios foi tomando uma circunferência de uma expressão incrédula, pois a mesma
guerreirinha começou a se mover.
Nesse
momento, uma ira inexplicável tomou conta da minha razão, e novamente investi
uma rajada de água com as mãos, de maneira aleatória, para que não houvesse a
mínima possibilidade daquele ser sair com vida. E novamente, após alguns
instantes imóvel, o pequeno indivíduo se rebatia, mais fraco, porém, muito
determinado a viver.
Num
momento súbito de lucidez, percebi que havia molhado boa parte do banheiro –
inclusive o teto. Fitei novamente a criaturinha e, naquele momento, a admirei
por tamanha persistência! Ela havia lutado com alguém muito maior e, mesmo
assim, mostrou-se impávida, forte e teimosa. Quase havia esquecido-me de fechar o registro e finalmente retirar-me do úmido campo de batalha. O tempo havia passado rapidamente e, então, percebi que aquilo foi
muito mais do que uma simples luta entre mim e uma formiga: foi uma lição que
levarei pelo resto da minha vida. O que ela representa? Só Deus sabe! Mas sempre me lembrarei daquela pequena-grande guerreira.
quarta-feira, 25 de março de 2020
Ego em quarentena
O tic-tac do relógio ecoava como um hino insuportável dentro das quatro paredes que me encontrava. Era um momento único, no qual sentia-me aprisionado sem ter o direito de ser julgado; sentia-me condenado por um crime que nunca se quer cometi.
Andei pelo espaço que fui incumbido e, tomado pelo sentimento de solidão e de vazio, me aproximei da superfície negra e espelhada e logo tive contato com o mundo externo e superficial dos canais abertos.
O ódio tomava conta das notícias! O caos estava instaurado! As pessoas estavam a digladiarem-se em nome de uma figura representativa que se quer tomava conta do problema que estava entre nós. Lembrei-me rapidamente do motivo do meu enclausuramento e fitei, aliviado, o que acontecia ao lado de fora. A minha prisão tornara-se meu locus amenus, mesmo quando o meu coração pulsava de maneira caótica dentro do peito.
Desliguei a televisão, e, tão rápido quanto uma bala, o tédio tomava-me aos braços e, novamente, dirigia-me à outra superfície negra e espelhada. Mas, com a certeza de que tinha a possibilidade de encontrar a realidade superficial que mais me agradava, acalmei-me mesmo diante das memórias que assolavam a minha sanidade.
"Ledo engano", diziam meus olhos ao fitarem novamente o caos de que em outro momento eu havia escapado. Contudo, não mais observava o caos de longe, pois estava envolvido no próprio ódio, compartilhado por pessoas que conhecia! A cada comentário, um post atrás de outro, era como se um exército tomado por um ódio indescritível estivesse atacando com todas as forças o seu inimigo, este que pertencia à mesma irmandade, à mesma família e ao mesmo batalhão. Aquele ódio alimentado por um patriotismo vazio, disfarçado de "opinião saudável", no intuito de livrar o próximo do mal, enchia meu coração medo. O caos estava mais presente do que nunca dentro daquelas quatro paredes.
Afastei-me do computador, recolhi-me em meu leito e, assustadíssimo, me pus a refletir sobre a minha quarentena, pois a solidão havia me afetado também. Finalmente havia chegado a uma boba e inocente conclusão:
Há quanto tanto tempo estamos em quarentena?
Já não há amor entre nós...
Estamos doentes antes mesmo da doença nos atingir com o beijo da morte,
Mas ainda é difícil estarmos sozinhos dentro de nós mesmos...
domingo, 12 de janeiro de 2020
Despedida
É difícil imaginar que a expressão "dê tempo ao tempo" faria tanto sentido para mim, mesmo depois de tantos anos vividos...
A ferida cicatrizou e,
apesar de ainda estar exposta,
não dói mais!
Quando o passado fita os olhos da minh'alma,
jã não me recolho...
Sentir o doce aroma da terra úmida depois da tempestade nunca me fez tão bem...
Apesar de ainda olhar-te as pupilas,
ouvir tuas palavras confusas proferidas que remetem à saudade,
ou até mesmo do meu coração pulsar ainda mais forte,
não detenho uma vã esperança daquilo que não pode acontecer...
É difícil ainda!
Vejo tudo com um olhar taciturno e humilde,
mas compreendo e sorrio de canto de boca com um suspiro de
"acontece..."
Hoje, lhe enviei uma carta que há muito havia escrito,
mas não tive coragem de lhe entregar,
pois ainda custava muito suportar a dor de tê-la distante...
Mas, o tempo apresentou-me o valor de seu quilate,
e, apesar de saber que você a leu e a descartou como uma bolinha de papel de um rascunho qualquer,
me sinto,
finalmente,
em paz...
A despedida daquele sentimento intenso foi branda e sincera.
Aprendi você sem te prender comigo,
e isso foi o melhor presente que poderia estar no meio do caminho que foi cruzado entre nós...
Obrigado, meu bem!
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