Em alguma segunda-feira qualquer,
especificamente após um dia não-tão-corrido-assim, cheguei do treino rotineiro
em uma academia próxima à minha humilde residência. Não seria tão rotineiro se
eu não tivesse desistido de cumprir todo o treinamento proposto por um personal trainer qualquer – no qual eu
nem me lembro do rosto –, por conta do estabelecimento estar tão lotado quanto
um formigueiro recém-construído, que fora pisado por uma criança travessa ao
jogar futebol num campinho.
A
desistência ocorrera de maneira certeira quando, no corredor da academia, avistei
uma esteira solitária. “Quarenta minutos de hammster
running para compensar o restante da ladainha física e logo cairei fora
daqui” – pensei com satisfação, ao possivelmente me ver livre daquele
formigueiro gigante o quanto antes. Não tardou e logo estava livre do ambiente
empanturrado de pessoas que buscavam objetivos que variam desde a estética à
saúde (mais para o primeiro objetivo).
Ao
chegar a casa, deparei-me com o banheiro livre, chamando-me como uma amante
deitada em seu leito sagrado de luxúria e perdição. Nem esperei os rituais
iniciais da noite de núpcias e já entrei com a roupa suada e mochila nas costas
sem pensar! Nada poderia atrapalhar o meu momento de prazer naquele fatídico
momento!
Após
despir-me, entrei no boxe de concreto, girei em sentido anti-horário o registro
que liberaria a minha liberdade em estado líquido e ali começou um dos rituais
mais sagrados e naturais de um ser humano: o banho. Uma curiosidade sobre esse
ritual é a consciência de que estamos vulneráveis diante da nudez e da solidão.
É compreensível, portanto, que os mais variados pensamentos fluam nesse
momento; que os sentimentos sejam derramados por meio das lágrimas que são
carregadas na chuva artificial; que os cânticos sejam finalmente liberados com
audácia, graças ao som estridente do chuveiro que acompanha como uma banda a
voz do desafinado...
Toda
essa reflexão surgiu no momento de paz, mas seria concluída se não fosse a
pequena imagem que invadia o meu território celestial: a figura impávida de uma
formiga!
Uma
pequena e maldita formiga! Aquela pequena presença despertou em mim uma fúria
do tamanho de um gafanhoto devido ao meu ódio ancestral por qualquer tipo de inseto,
então decidi tomar uma atitude digna de um rei que tenta proteger o seu reino:
atacar o inimigo com os recursos que o castelo me proporciona! E naquele
momento, o mesmo elemento que enxuga as lágrimas do sofredor tornou-se balas
dos canhões que foram apontados para aquele ser irritante. O primeiro jato de
água foi feito com as mãos em forma de concha, e logo me virei para continuar a
me deleitar novamente daquele momento interrompido. Mas quando tornei para
aproveitar do sabor da minha pequena vitória, me deparei com uma cena que
deixou meu ego mais ferido do que nunca: a formiga ainda estava viva!
Capengando,
aos frangalhos, o pequeno inimigo se mostrou mais forte do que a rajada mortal
de água, e isso representou uma afronta ao rei daquele ambiente úmido.
Novamente, recarreguei meu arsenal de munição aquática, ainda mais potente,
apontei com uma mira ainda mais apurada do que a última e investi contra o
pequeno guerreiro. Após o splash, não
virei como da outra vez, mas me pus em alerta para me certificar do destino
trágico que o mais poderoso ataque reservou para ela, e dessa vez um sorriso
sádico se fez desenhar em meu rosto, quando finalmente vi a minha pequena
inimiga imóvel. Entretanto, no lugar do sorriso sádico, o contorno dos meus
lábios foi tomando uma circunferência de uma expressão incrédula, pois a mesma
guerreirinha começou a se mover.
Nesse
momento, uma ira inexplicável tomou conta da minha razão, e novamente investi
uma rajada de água com as mãos, de maneira aleatória, para que não houvesse a
mínima possibilidade daquele ser sair com vida. E novamente, após alguns
instantes imóvel, o pequeno indivíduo se rebatia, mais fraco, porém, muito
determinado a viver.
Num
momento súbito de lucidez, percebi que havia molhado boa parte do banheiro –
inclusive o teto. Fitei novamente a criaturinha e, naquele momento, a admirei
por tamanha persistência! Ela havia lutado com alguém muito maior e, mesmo
assim, mostrou-se impávida, forte e teimosa. Quase havia esquecido-me de fechar o registro e finalmente retirar-me do úmido campo de batalha. O tempo havia passado rapidamente e, então, percebi que aquilo foi
muito mais do que uma simples luta entre mim e uma formiga: foi uma lição que
levarei pelo resto da minha vida. O que ela representa? Só Deus sabe! Mas sempre me lembrarei daquela pequena-grande guerreira.