quarta-feira, 25 de março de 2020

Ego em quarentena

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  O tic-tac do relógio ecoava como um hino insuportável dentro das quatro paredes que me encontrava. Era um momento único, no qual sentia-me aprisionado sem ter o direito de ser julgado; sentia-me condenado por um crime que nunca se quer cometi. 
  Andei pelo espaço que fui incumbido e, tomado pelo sentimento de solidão e de vazio, me aproximei da superfície negra e espelhada e logo tive contato com o mundo externo e superficial dos canais abertos.
  O ódio tomava conta das notícias! O caos estava instaurado! As pessoas estavam a digladiarem-se em nome de uma figura representativa que se quer tomava conta do problema que estava entre nós. Lembrei-me rapidamente do motivo do meu enclausuramento e fitei, aliviado, o que acontecia ao lado de fora. A minha prisão tornara-se meu locus amenus, mesmo quando o meu coração pulsava de maneira caótica dentro do peito.
  Desliguei a televisão, e, tão rápido quanto uma bala, o tédio tomava-me aos braços e, novamente, dirigia-me à outra superfície negra e espelhada. Mas, com a certeza de que tinha a possibilidade de encontrar a realidade superficial que mais me agradava, acalmei-me mesmo diante das memórias que assolavam a minha sanidade. 
  "Ledo engano", diziam meus olhos ao fitarem novamente o caos de que em outro momento eu havia escapado. Contudo, não mais observava o caos de longe, pois estava envolvido no próprio ódio, compartilhado por pessoas que conhecia! A cada comentário, um post atrás de outro, era como se um exército tomado por um ódio indescritível estivesse atacando com todas as forças o seu inimigo, este que pertencia à mesma irmandade, à mesma família e ao mesmo batalhão. Aquele ódio alimentado por um patriotismo vazio, disfarçado de "opinião saudável", no intuito de livrar o próximo do mal, enchia meu coração medo. O caos estava mais presente do que nunca dentro daquelas quatro paredes.
    Afastei-me do computador, recolhi-me em meu leito e, assustadíssimo, me pus a refletir sobre a minha quarentena, pois a solidão havia me afetado também. Finalmente havia chegado a uma boba e inocente conclusão: 

Há quanto tanto tempo estamos em quarentena? 
Já não há amor entre nós...
Estamos doentes antes mesmo da doença nos atingir com o beijo da morte, 
Mas ainda é difícil estarmos sozinhos dentro de nós mesmos...

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