quinta-feira, 26 de março de 2020

A formiga no banheiro

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Em alguma segunda-feira qualquer, especificamente após um dia não-tão-corrido-assim, cheguei do treino rotineiro em uma academia próxima à minha humilde residência. Não seria tão rotineiro se eu não tivesse desistido de cumprir todo o treinamento proposto por um personal trainer qualquer – no qual eu nem me lembro do rosto –, por conta do estabelecimento estar tão lotado quanto um formigueiro recém-construído, que fora pisado por uma criança travessa ao jogar futebol num campinho.
                A desistência ocorrera de maneira certeira quando, no corredor da academia, avistei uma esteira solitária. “Quarenta minutos de hammster running para compensar o restante da ladainha física e logo cairei fora daqui” – pensei com satisfação, ao possivelmente me ver livre daquele formigueiro gigante o quanto antes. Não tardou e logo estava livre do ambiente empanturrado de pessoas que buscavam objetivos que variam desde a estética à saúde (mais para o primeiro objetivo).
                Ao chegar a casa, deparei-me com o banheiro livre, chamando-me como uma amante deitada em seu leito sagrado de luxúria e perdição. Nem esperei os rituais iniciais da noite de núpcias e já entrei com a roupa suada e mochila nas costas sem pensar! Nada poderia atrapalhar o meu momento de prazer naquele fatídico momento!
                Após despir-me, entrei no boxe de concreto, girei em sentido anti-horário o registro que liberaria a minha liberdade em estado líquido e ali começou um dos rituais mais sagrados e naturais de um ser humano: o banho. Uma curiosidade sobre esse ritual é a consciência de que estamos vulneráveis diante da nudez e da solidão. É compreensível, portanto, que os mais variados pensamentos fluam nesse momento; que os sentimentos sejam derramados por meio das lágrimas que são carregadas na chuva artificial; que os cânticos sejam finalmente liberados com audácia, graças ao som estridente do chuveiro que acompanha como uma banda a voz do desafinado...
                Toda essa reflexão surgiu no momento de paz, mas seria concluída se não fosse a pequena imagem que invadia o meu território celestial: a figura impávida de uma formiga!
                Uma pequena e maldita formiga! Aquela pequena presença despertou em mim uma fúria do tamanho de um gafanhoto devido ao meu ódio ancestral por qualquer tipo de inseto, então decidi tomar uma atitude digna de um rei que tenta proteger o seu reino: atacar o inimigo com os recursos que o castelo me proporciona! E naquele momento, o mesmo elemento que enxuga as lágrimas do sofredor tornou-se balas dos canhões que foram apontados para aquele ser irritante. O primeiro jato de água foi feito com as mãos em forma de concha, e logo me virei para continuar a me deleitar novamente daquele momento interrompido. Mas quando tornei para aproveitar do sabor da minha pequena vitória, me deparei com uma cena que deixou meu ego mais ferido do que nunca: a formiga ainda estava viva!
                Capengando, aos frangalhos, o pequeno inimigo se mostrou mais forte do que a rajada mortal de água, e isso representou uma afronta ao rei daquele ambiente úmido. Novamente, recarreguei meu arsenal de munição aquática, ainda mais potente, apontei com uma mira ainda mais apurada do que a última e investi contra o pequeno guerreiro. Após o splash, não virei como da outra vez, mas me pus em alerta para me certificar do destino trágico que o mais poderoso ataque reservou para ela, e dessa vez um sorriso sádico se fez desenhar em meu rosto, quando finalmente vi a minha pequena inimiga imóvel. Entretanto, no lugar do sorriso sádico, o contorno dos meus lábios foi tomando uma circunferência de uma expressão incrédula, pois a mesma guerreirinha começou a se mover.
                Nesse momento, uma ira inexplicável tomou conta da minha razão, e novamente investi uma rajada de água com as mãos, de maneira aleatória, para que não houvesse a mínima possibilidade daquele ser sair com vida. E novamente, após alguns instantes imóvel, o pequeno indivíduo se rebatia, mais fraco, porém, muito determinado a viver.
                Num momento súbito de lucidez, percebi que havia molhado boa parte do banheiro – inclusive o teto. Fitei novamente a criaturinha e, naquele momento, a admirei por tamanha persistência! Ela havia lutado com alguém muito maior e, mesmo assim, mostrou-se impávida, forte e teimosa. Quase havia esquecido-me de fechar o registro e finalmente retirar-me do úmido campo de batalha. O tempo havia passado rapidamente e, então, percebi que aquilo foi muito mais do que uma simples luta entre mim e uma formiga: foi uma lição que levarei pelo resto da minha vida. O que ela representa? Só Deus sabe! Mas sempre me lembrarei daquela pequena-grande guerreira.



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